O Município de Indaial é portador de uma riqueza ímpar, e que necessita de uma atenção especial de todos, pois que está em franca extinção: a arquitetura no estilo enxaimel. É exatamente na nossa região que teve início uma colonização que deixou profundamente marcados os traços da cultura germânica.
E esse acervo arquitetônico, face à falta de recursos para a sua manutenção, bem como à falta de conscientização de seu valor, pela comunidade como um todo, está fadado a desaparecer.
Foi em São Leopoldo, no Vale dos Sinos gaúcho, onde tudo começou: em 1824 foi fundada ali a primeira colônia de imigrantes alemães no país, então recém-emancipado de Portugal. Por influência de José Bonifácio, Dom Pedro I decidiu inaugurar com eles um programa de imigração para o sul movido não apenas por questões de segurança nacional, diante das sucessivas disputas territoriais naquela então erma região fronteiriça, como também por um casamento de interesses políticos, literalmente – filha de Francisco I, da Áustria, a imperatriz Leopoldina tinha sangue germânico. O êxodo foi impulsionado, também, pela escassez de terras que apenas garantia sua posse ao primogênito de cada família.
Hoje, o Estado com maior população de descendência alemã é Santa Catarina, com mais de 20% do total.
As casas no chamado estilo enxaimel são uma das principais atrações turísticas em qualquer região de colonização alemã. Quando os primeiros alemães chegaram ao Brasil, a arquitetura enxaimel já não era utilizada havia muito tempo, mas foi considerada a mais adequada para as condições encontradas no Rio Grande do Sul e Santa Catarina.
Além de fortes, as casas eram baratas e de construção simples. Enxaimel quer dizer enchimento. Primeiro, era construído o esqueleto da casa, todo de toras grossas de madeira. Entre as vigas verticais eram colocadas as horizontais e, nas extremidades das paredes, algumas em ângulo, para evitar inclinação. Pronta a “caixa”, os espaços eram completados com tijolos à vista.
O Vale do Itajaí, no Estado de Santa Catarina, tem a maior concentração deste modo construtivo na América. Os municípios de Indaial, Blumenau, Timbó e Pomerode têm número significativo de enxaiméis, também conhecidos por “Fachwerk” no idioma alemão.
Na realidade, o enxaimel de nossa região não é uma criação alemã, assim como as arquiteturas ditas açorianas ou italianas, mas elas têm a base nos países originários. Essa técnica de construção já era conhecida pelos etruscos no século VI a.C., podendo ter iniciado até mesmo antes, talvez pelos egípcios ou povos da Mesopotâmia.
O enxaimel trazido pelos imigrantes alemães no fim do século XIX, foi desenvolvido na Alemanha entre os séculos XVI e XVIII, e é um modo de construir relativamente simples: consistia de uma construção quadrada ou retangular, contendo muitas vezes requintes artesanais como madeiramento esculpido, floreiras trabalhadas e um sem número de adereços.
Os exemplares mais antigos mostram a estrutura travejada com encaixes e, no lugar de pregos de metal, usam-se pregos maiores de madeira. Nas paredes de vedação os tijolos de argila ficam aparentes, e são inúmeros os exemplares cobertos com reboco ou pintura.
As portas e janelas, em duas folhas de madeira, são geralmente pintadas em vermelho nos caixilhos, e em verde nos planos maiores, que às vezes são inteiramente brancos. Em alguns casos, as folhas maiores trazem pinturas externas de guirlandas com pequenas flores. Clique e veja detalhes.
Desde o momento da chegada do imigrante em suas terras recém adquiridas, até a construção do enxaimel propriamente dito assim como nós o conhecemos, passaram-se diversas transformações:
Primeira fase. Inicialmente eram construídas casas com troncos roliços de palmito, bastante abundante na mata nativa, sendo a cobertura feita com outra espécie de palmácea. O piso era de chão batido. A construção era bastante pequena, e era apenas um abrigo provisório até que o terreno estivesse limpo e alguma plantação iniciada. Compunha-se de um único cômodo e uma cozinha primitiva em anexo.
Segunda fase. Essas edificações já aparecem com toda a sofisticação técnica do Fachwerk. A maioria das peças de madeira ainda são falquejadas a machado ou enxó, os esteios serrados a mão, ou também falquejados.
No preenchimento das estruturas, utilizava-se mistura de barro, capim e estrume de gado, sustentado por uma treliça de madeira falquejada, presa entre os módulos do esqueleto. As janelas eram simples, com duas folhas de tábuas. Por fatores de segurança contra incêndio e pelo fato de ainda não haver chaminé, a cozinha era separada por um corredor ao longo da fachada lateral da casa.
Terceira fase. É o nosso enxaimel propriamente dito. Com o aparecimento das chapas de ferro fundido, o fogão recebe uma chaminé, tornando a cozinha mais segura, eficiente e limpa, incorporando-se esta ao corpo da casa. Ocorre aqui uma adaptação ao nosso clima: o aparecimento da varanda, sempre oposta ao longo da casa, em direção contrária à cozinha.
Devida à alta temperatura, o sótão não era utilizado como quarto, e sim como depósito. Nesta fase, toda a madeira utilizada já é cortada por engenhos com serras movidas com rodas d’água, com exceção das peças muito grandes, de difícil transporte, que continuavam sendo falquejadas.
Na Alemanha, devido ao clima muito frio, o estábulo era junto à casa, e até sob o piso da parte residencial, isto para armazenar o calor. Com nosso clima sub-tropical, forçou-se uma dissociação da casa com o estábulo, ambas tornando-se construções independentes.
O enxaimel do Vale do Itajaí não é inteiramente original, pois que sofreu transmutação para adaptar-se às condições tropicais da região, mas reveste-se de importância porque significou um retrato de uma época da nossa colonização.
Em Indaial, existem aproximadamente 120 casas construídas nesta técnica. Algumas muito bem restauradas, outras ainda originais, e outras em péssimo estado de conservação, praticamente abandonadas.
Vale lembrar que cada enxaimel foi ou é um lar, possui em si a história de muitas vidas e de muitos dos nossos antepassados. Foram construídos com muito trabalho e perseverança, e foram construções importantes no desenvolvimento desta cidade que nos enche de orgulho.
Cabe a nós, indaialenses, mantermos viva a idéia da preservação da arquitetura enxaimel em nossa região. É preciso conscientizar nossa população de que, a cada enxaimel desaparecido, perde-se mais uma folha do livro da história indaialense.
O Portal de Indaial externa especial agradecimento ao Sr. Heinz Beyer, incansável batalhador pela preservação do enxaimel em nossa região. Durante aproximadamente seis anos (1989 a 1994), realizou levantamento fotográfico de uma centena de casas nesse estilo, num dedicado esforço e pesquisa, e agora colabora expontânemante com este site.
Veja mais fotos de arquitetura Enxaimel. Imagens de diversas cidades. Clique aqui.
Para saber mais:
Jornal A Ponte, edições dos anos 1995 a 1996.
Revista Época, Ano II, No. 87, 17 de janeiro de 2000.
Detalhes construtivos:




